Relutei um pouco em fazer este post porque não gosto de falar mal de livro. Acho que livro é que nem comida: cada um tem seu gosto e a gente não tem nada que ficar criticando o gosto dos outros. Além do mais, aquilo que gosto pode não ser o que outra pessoa gosta, então, entendo que descer a lenha numa obra é quase perda de tempo.
Salvo exceções é claro. Salvo aqueles livros que gritam pra gente o quanto são ruins. Nesses casos, a crítica é quase desnecessária porque aí caminhamos no óbvio ululante.
Por isso relutei em fazer o post. Porque sei que estou diante de uma obra que, embora não tenha satisfeito o meu gosto, provavelmente irá satisfazer o gosto de outras pessoas. Porque, afinal, não é ruim a ponto de gritar.
Refiro-me ao livro "Sou dona da minha alma: o segredo de Virgínia Woolf". Enviado de maneira tão querida pela Editora Bertrand.
Como sabem, fiquei em êxtase ao recebê-lo. Pulei o carnaval não pelo carnaval em si, mas de alegria pois a obra chegou junto com o feriado. Mas a leitura arrastou-se cinzenta, quase torturante.
Não fosse a curiosidade em desvendar e conhecer mais a vida de Virgínia - e o livro tem seu mérito nessa parte - eu teria desistido da leitura já nas primeiras 100 páginas. O fato é que não gostei, mesmo, da linguagem utilizada por Nadia.
Entendam que eu amo poesia e amo o escritor que sabendo dosar as palavras, consegue fazer crítica literária banhada de metáforas, alegorias, como se estivesse fazendo um poema simbolista. Mas Nadia exagera, exagera ao ponto de cansar nossa alma. Me vi em vários momentos tendo que reler as passagens para conseguir, enfim, compreender o raciocínio da autora. Veja um exemplo:
No início julguei que a necessidade de releitura era cansaço, mea culpa, devia estar lendo na hora errada. Mas era feriado, certo? Eu não tinha como estar mais descansada. Vamos entender que o problema estava mesmo no texto, não em mim.
Nadia faz seu trabalho baseada num tipo de crítica que gosto muito: aquela que lê obra e vida do autor, deixando que ambas se entrelacem, entendendo que uma interfere muito na outra. Para quem não é da área, explico melhor: existe a crítica literária que lê o livro independente do seu autor, sem deixar que os traços da vida interfiram no texto. E há outro lado da crítica (o que mais me fascina) que não só aceita, como apenas lê o texto pelo olhos da biografia. Este livro sobre Virgínia realiza o segundo caminho. E embora seja esse o meu preferido, não achei que a autora conseguiu sustentar sua leitura com precisão e coerência. Sua linguagem, poética demais, fica prolixa, confusa. Seu texto rasteja e obscurece a razão de tudo: Virgínia.
Não é Clarice quem diz que, já que se há de escrever, que ao menos não se esmague com palavras, as entrelinhas? Para mim Nadia esmagou. Esmagou Virgínia, esmagou o texto, esmagou a mim. Tivesse ela escrito um romance talvez me soasse mais agradável. Mas eu buscava uma biografia, não um poema.
Não sei até que ponto é culpa também da tradução. Mas sou leiga demais nesse aspecto e continuo achando que nem a pior tradução consegue melhorar ou estragar demais uma obra, ela não teria esse poder. O mérito ou o desmérito é e sempre será do seu autor original. (Claro que estou sempre aberta a discutir este tema com quem realmente conhece o assunto e possa me instruir se estou analisando a tradução a partir de uma leitura equivocada).
Enfim, eis minha leitura. Amarga, maçante, indigna de autora que tanto amo.
Ou será que assim como tenho feito com Clarice, por amar tanto ambas, tornei-me leitora chata?
Fica o segredo. Não o de Virgínia, mas o meu.
E já que comecei o texto falando em diversidade de gosto, para ser justa com o livro e com a crítica, deixo este link aqui, onde encontrei impecável texto falando exatamente o contrário de tudo o que vos apresento!
A boa crítica deve sempre ser acompanhada da crítica contrária. ;)
Gostaria de agradecer à Editora Bertrand, pelo envio do livro e pelo excelente tato profissional em não só aceitar esta crítica como e, principalmente, sugerir que ela fosse publicada. Merece, ainda mais, minha admiração!
E para terminar este longo post, só uma prévia do que vem por aí:
Sim, o Estojo Mrs Dalloway da Editora Autência já está aqui em casa!!! Logo, em vídeo! =)


8 comentários:
Embora eu só tenha lido Mr. Dalloway e Orlando, gosto muito da Virgínia Woolf e já tinha colocado este na minha lista dos que quero ler. Mas agora fiquei meio assim... Dizem que tem um "divisor de águas" no estilo que ela escreve... Só não sei ao certo onde é. Tem um box dela no submarino que estou "namorando" há um bom tempo.
Beijos e bom fim de semana!
Que engraçado, Ju, eu gostei muito desse livro e não achei a leitura nem um pouco cansativa...talvez vc trnha esperado muito desse livro, né? Bjs
Oi Ju! Olha, não quero ser do contra, mas acho MUITA coisa pode ser problema do tradutor, sim. Não sei se é o caso porque, pra ter certeza, o texto em inglês é fundamental. Mas, olha, por esse trechinho que vc mostrou... hummm... tem cara de erro no português (tradutor, preparador ou editor). Poderíamos investigar, hein?
Beijocas.
http://blogdaeditora.wordpress.com
Oi, Ju!
Eu sei bem o que é uma leitura arrastada. Você conhece o livro "Reparação", do Ian McEwan? É um romance super bem comentado, já virou filme, dizem ser uma obra-prima e tudo mais, porém, quando eu li, foi muito chato, a leitura não deslanchava de forma alguma. No início eu até gostei da história, mas depois achei o rumo da narrativa muito estranha. Eu ficava me perguntando o que havia de errado na minha leitura... enfim... quero dizer que essas coisas acontecem, alguns livros se tornam intragáveis mesmo, faz parte.
"Sou dona da minha alma" é uma biografia diferente, pois não têm as fortes características dos textos informativos, talvez o seu estranhamento tenha começado neste ponto.
Eu gostei do livro, mas tem uma outra biografia que roubou meu coração no último mês, é "A Medida da Vida", lançada pela CosacNaify. #ficadica
beijos e boas leituras
Francine
Oi Ju!
Mesmo quando vc não gosta de um livro, qdo espera muito e acha decepcionante...sua resenha fica impecável! É por isso que volto aqui todos os dias, à espera de textos bem escritos, coerentes e encantadores. Não gosto muito de biografias e tenho grade resistência a lê-las...uma pena que a decepção tenha sido logo com uma de Virginia.
Um beijo e ótimo fim de semana!
*ainda n tirei da cabeça a capa do Festa no covil...rs. Aquela sua resenha foi de matar um leitor em rehab*.
www.dignidadenaocabeaqui.blogspot.com
O trecho já desanima qualquer leitura. Mas pode ser a tradução sim. Tem uma série de livros que eu adoro, o Crônicas Saxônicas do Bernard Cornwell, mas eu sempre critiquei a mania de ficar relembrando o que aconteceu no outro livro. O Danilo está lendo o último livro lançado em inglês e disse que não tem nada disso no original. Não sei se ele mudou nesse último ou se a tradução que fica colocando essas partes. Só vou descobrir quando o livro for lançado no Brasil e eu ler...
'Tô ansiosa pra ver esse estojo Mrs. Dalloway *-*
Ps: essa questão da linguagem que a autora usa, pode ter sido piorado por conta da tradução sim :x já ouvi muitas pessoas comentando sobre como uma tradução mal feita pode prejudicar um bom livro :x
Puxa, que pena que a linguagem é ruim!
Mas ainda assim, fiquei com vontade de ler.
Beijinhos, amoreca!
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