terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Conto de fadas com hipopótamos [leitura do ano #15]

Carrego tanto e tantos livros comigo que logo chegará a hora em que os livros me carregarão. Se não tenho uma ecobag repleta deles por causa das aulas que darei no dia, tenho um dependurado nos braços e nos passos das paradas do dia: banco, médico, esperas - há sempre um livro para me acompanhar.

E nestes momentos devo dizer que raras foram as vezes em que fui interpelada por algum curioso interessado na leitura ou no livro. Não tenho a sorte da Gabriela que não só é incomodada por outros como encontra outros iguais.

Porém, nos dois dias em que Festa no covil me acompanhou nas esperas [aqueles preciosos minutos que antecedem o sinal para entrar nas sala de aula] fui tanto e tão interrompida que quase me escondi no banheiro, para conseguir finalizar minha leitura em paz.

"O que está lendo?", "Que livro é esse", "Posso ver?", foram algumas das frases que conhecidos e desconhecidos usaram para me abordar e poder segurar em suas mãos o livro que repousava nas minhas.

A despeito o incômodo gerado [e quem ama leituras silenciosas sabe o que quero dizer] devo confessar que compreendi completamente o interesse alheio. E para isso, façamos um flashback de três dias.

Em passeio ao shopping e a sempre passagem na Livraria Saraiva, entrei determinada a não gastar mais do que 70 reais em livros [meus gastos excessivos e abusados avisam que devo aprender a ser, também, equilibrada com as letras]. No entanto, estava ainda mais decidida a comprar muitos e encontrá-los em preços agradáveis, diria até decentes. De modo que esgueirei pelas estantes da loja em busca de livros bons com preços ótimos. Antes de completar uma hora eu já tinha meus troféus que não ultrapassavam 60 reais. Era uma campeã. 
No caminho para o caixa notei uma capa. Ou a capa me notou, nunca saberemos. E hipnotizada fui caminhando na direção mais improvável para os meus passos: o móvel redondo dos lançamentos e mais vendidos, aquele que nos recebe na porta da loja e nos oferta os livros que eu dificilmente compro. Avessa aos best sellers que sou.

Mas ignorei o móvel, caminhei decidida na direção de uma cor que gritava por minha atenção, de uma capa perplexa, nefasta, patética até o desespero mais fulminante. E acredite, utilizo esses termos com a melhor das intenções.

desenhos de Elisa Randow
Li a sinopse pela metade, larguei todos os livros colhidos até então e resoluta segui até o caixa. Por ele paguei o preço que pagaria em outros três pescados à exaustão, encontrados por economia e abandonados por impulso.

Festa no covil era lindo demais para ser deixado para trás. Não me recordo a última vez em que fiquei tão hipnotizada por uma capa a ponto de desistir de outras compras para levar exatamente aquele. Exatamente um livro do qual não sabia absolutamente nada: nem autor, nem história.

Flashback findo.

Li em dois dias. E os olhos das pessoas ao meu redor consumiam minha leitura porque elas também estavam hipnotizadas pela capa. Elas também levariam para si aquele livro, não estivesse ele amarrado às minhas mãos: li até dentro da sala de aula [que meus superiores não me ouçam].

Festa no covil poderia ser tomado como um romance de formação (Bildungsroman), não fosse tão diferente do que os romances de formação são. Poderia ser considerado [como afirmam no posfácio] narcoliteratura, não fosse tão superior do que o gênero vem propondo hoje em dia.
Qual é o lugar deste livro, em termos de estudos literários, eu não saberei dizer. Talvez o mesmo lugar em que se insere seu personagem principal: o lugar daqueles que não cabem em lugar algum. Mas que são obrigados a circular mesmo assim.

Não defino o romance de Juan Pablo Villalobos porque sei pouco definir o que me fascina, o que me surpreende. 

Tochtli é um menino que mora em um palácio no México. E dentro da sua solidão protegida, de uma vida afastada de todos que poderiam lhe fazer mal por causa de um homem que faz mal a todo mundo, Tochtli coleciona palavras e chapéus. E quer colecionar hipopótamos anões da Libéria. E é tudo o que falarei desse menino.

Na verdade, é tudo o que falarei desse livro. Porque, de acordo com Tochtli

"os cultos são pessoas metidas porque sabem muitas coisas. (...) Por isso os cultos gostam de ser professores. (...) os cultos sabem muitas coisas dos livros, mas não sabem nada da vida."

E agora, neste texto, não quero ser culta e tampouco professora. Quero ser leitora fascinada pelo novo. Ou pelos novos: o menino que conta sua história e um autor mexicano.

Nem romance de formação, nem narcoliteratura, Festa no covil é um conto de fadas moderno, ou melhor diria, um conto de feras, sórdido, devasso! Delicioso!

*

PS1: Aconselho leitura deste texto, onde Elisa Randow, a criadora da capa, explica criatura e criação. Explica tudo!
PS2: Recomento a leitura deste texto, caso queira informações mais completas sobre o enredo do livro. Na verdade, eu recomento mesmo é a leitura do livro!!!


10 comentários:

Margareth Gervason disse...

Te amo viu?
Beijos
Boa quarta
Beijos coloridos!

Priscila Selingardi disse...

Agora fiquei mt curiosa é sobre os livros deixados pra trás por conta da sua paixão à primeira vista Pela Festa do Covil....rs
PS: Seu livro chegou aqui, mei viu. O meu ja chegou aí? Bj

Bib's disse...

Quanto poder em um livro! Awn.... a gente ama hipopótamos anões! Fiquei muito curiosa para saber que história é essa de colecioná-los!
Beijos!!!

Mylena M. disse...

Quando vi a capa desse livro fiquei fascinada também *-* E depois que li a resenha do Meia Palavra sobre ele, fiquei ainda mais fascinada! E provavelmente se visse você com esse livro, em sala, não faria mais nada e ficaria admirando a capa, e falando incessantemente que eu estou doida para ler esse livro!!

Mylena M. disse...

Quando vi a capa desse livro fiquei fascinada também *-* E depois que li a resenha do Meia Palavra sobre ele, fiquei ainda mais fascinada! E provavelmente se visse você com esse livro, em sala, não faria mais nada e ficaria admirando a capa, e falando incessantemente que eu estou doida para ler esse livro!!

Margareth Gervason disse...

Super legal a dica, vou indica-lo também!
Boa quarta
Beijos coloridos!

Denise Mercedes disse...

Aviso aos navegantes que esta por 23 reais na Travessa com frete grátis para o Rio... não aguentei! rs

Beijos!

PS: Eu faço uma cara tão feia quando sou interpelada no meio da leitura que acho que até assusto! kkk

Mônica Gervason disse...

Nossa! Fiquei intrigada para ver os outros livros também! Tenho certeza que você vai adquiri-los brevemente.
Vou correndo comprar A festa do Covil!!!!!!Voc~e escreve tão bem que me encantou!
Beijinhos

Aline Aimée disse...

Uau!
Que resenha ótima!!!
Fiquei louca de vontade de ler!

Beijaõ!

mirtes disse...

Realmente vi esse livro ao vivo ontem e a capa dele chama muito atenção.
Falei até pro namorado "que capa linda!". Ele, que não entende muito minha paixão por livros, deve ter me achado louca hehe
Está na lista de próximas aquisições!
Bjs