Devo avisar antes de qualquer coisa que este post é um spoiller para quem ainda não leu o livro Balada do café triste, de Carson McCullers.
Então, se alguém aí pretende ler este livro de contos, aconselho a parar a leitura agora. =)
Mas se gosta de uma história de amor e já está curiosa ou curioso, continue.
Mas se gosta de uma história de amor e já está curiosa ou curioso, continue.
Bom, eu terminei de ler o livro hoje. Passei uma semana com ele entre momentos de ócio (sim, eles existem) a momentos de insônia (existem então, ainda mais).
Não conhecia a autora e fiquei encantada em saber que é uma escritora americana da década de 40. Adoro essas descobertas na literatura feminina. E ultimamente tenho feito muitas: Jane Austen, Charlotte Bronte e agora a Carson. Já tinha ouvido falar das duas primeiras, mas só as li agora, e adorei.
Pois bem. Foi o dono da livraria quem indicou a Carson e ainda se arriscou dizendo: garanto que irá gostar. Mas se não gostar, devolva o livro que devolvo o seu dinheiro.
Nem se eu estivesse maluca teria deixado de ouvir o conselho e a intimação dele! =)
Estou acostumada a ler livros de contos que possuem bons textos selecionados no início da obra e textos ruins que vão ganhando as páginas finais. Parece que os editores (ou o autor) se preocupam em ganhar o leitor nas primeiras páginas.
Mas neste livro tive uma experiência completamente diferente. O último conto me arrebatou, me ganhou e me encantou para todo o sempre. E é dele que quero falar a partir de agora. Seu título? Uma árvore, uma pedra, uma nuvem (inclusive é o título da obra no original).
É a história de um homem velho que está bebendo em um bar e ao ver um pequeno menino entregador de jornais o chama dizendo: eu amo você.
Não bastasse a estranha abordagem por parte do velho (vista também com olhos de dúvidas pelas pessoas do bar) nas primeiras páginas a história cria uma tensão gostosa. De um lado o menino assustado que, obrigado a obedecer ao chamado do velho senta-se ao seu lado mas se mostra com vontade de sair, e de outro nós que curiosos com a história do velho queremos mesmo é que o menino continue por lá. Ainda que isso possa ferir a integridade dele, já que o velho se mostra extremamente estranho e fica aquela sensação de que fará algo com o menino (confesso que até pedofilia passou pela minha cabeça, já que as outras histórias da autora trabalhavam temas bens variados e intensos).
Bom, a história se desenrola com o velho falando com o menino e tentando contar uma história que se passou com ele. Confusa, estranha que se arrasta sem delinear completamente o que é de verdade. Até que no final, já nas últimas páginas do conto o velho revela: foi apaixonado por uma mulher, viveu com ela feliz os primeiros meses de relacionamento, ela engravidou e, para a desgraça do homem, se apaixonou por outro e o abandonou.
Nos primeiros anos de abandono ele tentou ir atrás dela, descobrir onde e com quem estaria. Mas em vão. Ela simplesmente desaparecera e ele sofreu muito.
Ficou desvairado, desesperado, desnorteado.
O menino vai ouvindo a história como se fosse a um ensinamento. Até que o velho (entre uma golada e outra de sua cerveja), revela:
"E foi isso. Agora escute com cuidado. Meditei muito sobre o amor e cheguei a uma conclusão. Entendi o que há de errado com a gente. Os homens se apaixonam pela primeira vez. E pelo que eles se apaixonam?"
E ele mesmo responde ao menino, que apenas o olha intrigado: "Por uma mulher."
Bom, vou reproduzir a teoria do velho, que é uma das coisas mais lindas que já li nos últimos tempos, acompanhem:
"- Eles começam pelo fim errado do amor. Eles começam pelo clímax. Sabe por que o amor é uma coisa tão infeliz? Sabe como os homens deveriam amar?
O velho estendeu a mão e pegou o menino pela gola da jaqueta de couro. Sacudiu-o devagar, e seus olhos verdes olharam para baixo, sem piscar.
- Filho, você sabe como o amor deveria começar?
O menino continuava sentado, ouvindo. Balançou lentamente a cabeça. O velho chegou mais perto e sussurrou:
- Uma árvore. Uma rocha. Uma nuvem. (...) Durante seis anos, andei por aí desenvolvendo minha técnica. Agora sou mestre, filho. Eu posso amar qualquer coisa. Nem preciso pensar do que se trata. Vejo uma rua cheia de gente e uma linda luz surge dentro de mim. Vejo um pássaro no céu. Ou encontro um viajante na estrada. Todas as coisas, filho. E todo mundo. Todos os desconhecidos, todos amados. Você consegue compreender o que uma ciência como a minha significa?"
Depois disso o menino pergunta ao velho se ele reencontrou a mulher. O velho diz que não e que jamais estaria preparado para isso novamente, precisaria desenvolver ainda mais sua ciência. E, depois disso tudo, ele olha para o menino e se despede levantando da mesa e dizendo exatamente o que havia dito no início do conto: "lembre-se de que o amo".
O menino fica assustado e pergunta ao dono do bar - que havia observado toda a conversa - se o velho estaria bêbado. O dono do bar diz que não. Se o velho estaria drogado. Novo não. E, finalmente, se o velho estaria louco. O dono do bar não diz nada, mas ele sabia que não.
E o conto se encerra aí. Traçando o que eu entendo como uma da reflexões mais bonitas acerca do amor, dos sofrimentos amorosos e, principalmente, da tristeza de quem ama e se sente incapacitado a amar novamente.
Carson McCullers ganhou-me com este conto. O menor do livro, o mais denso, o mais bonito, uma das histórias mais verdadeiras que já li sobre amor.
Ou sobre a falta dele...
E porque Carson mostrou saber falar muito bem sobre o amor, decidi que o próximo livro dela que lerei será:




9 comentários:
Fiquei curiosa qto ao conto do menino, lendo o post suspeitei que o menino fosse um "fantasma" do passado, mas...
Beijooo!
Olá Jú!!
Infelizmente eu lhe digo que não li o post todo.
Mas foi por recomendações suas.. Então ta valendo!
Beijoooss
Até+
TaniaRibeiro
www.tanialeixo.blogspot.com
@tanialeixo
Amei, amei, amei... Tá vendo só: Sou capaz de amar livros... rs
Falando sério: que lindo esse conto. Agora fiquei interessada.
Dou uma dica, sem querer ser atrevida e sem saber se vc já conhece: Rosamunde Pilcher, conhece? E o seu livro: Catadores de Conchas? Já ouviu falar? Vale a pena. Lindo demais.
Beijinhos
Jô
Ju, infelizmente não segui seu conselho e li o post até o fim, e agora felizmente estou apaixonada pelo livro sem nem lê-lo e louca para conhecer mais da autora. Sofro desse pequeno probleminha: se apaixonar por coisas tristes...
P.S: A cada visita aqui no seu blog, meu coração fica adocicado e meu mente alimentada de coisas boas, inteligentes e meigas!
Obrigada por isso.
Beijos e bom fim de domingo.
Mikaelly Andrade
Aiii Jú! SUPER quero ler todo o livro!
Fiquei encantada pelo seu texto e pelo pedaço do conto.
AMEI! =D
Lita, e o conto tem todo um suspense mesmo. Só que mais voltado para o velho =)
Tania, quando ler me conte! =)
Jô, obrigada pela dica. Eu já havia ouvido falar dela, mas não desse livro que você citou. Vou procurar! Obrigada pela dica!!! Beijocas
Mikaelly, pode ler que você vai gostar!!! E muito, muito obrigada mesmo, pelas palavras de carinho.
Nessa, leia!!!!!! Vai amar o conto todo!!!
Beijocas meninas.
Lita, e o conto tem todo um suspense mesmo. Só que mais voltado para o velho =)
Tania, quando ler me conte! =)
Jô, obrigada pela dica. Eu já havia ouvido falar dela, mas não desse livro que você citou. Vou procurar! Obrigada pela dica!!! Beijocas
Mikaelly, pode ler que você vai gostar!!! E muito, muito obrigada mesmo, pelas palavras de carinho.
Nessa, leia!!!!!! Vai amar o conto todo!!!
Beijocas meninas.
Que bonito Ju! Acho que estou precisando voltar para as minhas leituras literárias... tenho lido livros mais técnicos, e sinto falta de entrar em outro mundo através da leitura...
Beijos
li o pst todo e os spoillers me deixaram ainda mais com vontade de le-lo. bj
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