quinta-feira, 17 de abril de 2014

"Organiza isso, Juliana" e as etiquetas que não deram certo!

Alguns dias atrás fiz um post sobre organização, para  meu projeto de catalogação dos livros (que anda um pouco parado por falta de tempo) e resolvi ver como estavam se comportando as etiquetas que havia colado nas capas dos livros não lidos.
Para entender melhor essa história, sugiro que leia este post.

Pois bem. Fui tentar arrancar uma etiqueta, como teste, para ver se sua cola iria transferir para a capa do livro. E é triste que assumo: não façam isso.

Algumas capas, por apresentarem materiais diferentes, meio que aderem à cola das etiquetas e o estrago, a longo prazo, pode ser irrecuperável. No desespero de quem preza pelo bem estar dos livros, arranquei todas as bolinhas e vou me contentar por, apenas, catalogar aqui no blog o que ainda não li. Nada de sair colando bolinhas que, no futuro, poderão danificar os livros.


quarta-feira, 16 de abril de 2014

Post fixo


Quem acompanha o face sabe que estou muito feliz com o retorno que estou tendo da venda dos meus livros.
Primeiro é importante que entendam que a princípio eu não queria me envolver com as vendas - deixar isso nas mãos da editora e das livrarias seria muito mais cômodo.

No entanto, desde que o livro começou a ser vendido, recebo semanalmente mensagens de pessoas que estão tentando comprar e não conseguem. A massa da reclamação resume-se a: o prazo para entrega é alto / depois de semanas esperando, a livraria cancelou a compra.

Desta forma, acabei me chateando com isso - afinal, o que quero é ser lida, mas não há possibilidade de ser lida quando isso é difícil para os que tentam...

Logo, pedi à editora que enviasse trinta livros para minha casa que os colocaria disponíveis no blog. O que eu não esperava é que os 30 livros seriam vendidos em menos de três dias!

Já falei sobre isso aqui, mas repito: Obrigada!

Com o fim do estoque que achei que duraria meses, acabei pedindo mais para a editora e eis que chegaram ontem.

Então, tenho agora mais livros disponíveis para quem se interessar. O esquema é o bom e velho de sempre: se você quer o livro, basta enviar um email para 

defiju@ig.com.br

Por email explico os procedimentos para pagamento e envio, ok? O valor é fixo para qualquer região do Brasil: R$25,00 livro + frete. O envio é pelo Registro Módico, por isso um frete tão barato =)

Um abraço!

terça-feira, 15 de abril de 2014

"Dias perfeitos" de Raphael Montes [Companhia das Letras]

Sou leitora de Rubem Fonseca há um bom tempo e, embora não goste de romances policias estrangeiros - excetuando-se a boa e velha Agatha Christie - devo dizer que é um gênero que me agrada demais. Sobretudo o universo dos cinemas e seriados - sendo que nesse caso, prefiro os estrangeiros. Gosto de "vestir a detetive" e tentar caçar as pistas do autor, gosto de descobrir que errei quando deduzi algo que não se concretizou, e gosto mais ainda de perceber a construção dos personagens - parece que no caso deste gênero, os desafios são maiores para o autor.

Rubem Fonseca será sempre meu escritor do topo na lista dos brasileiros. Há alguns dias li dois livros de Patrícia Melo, sua assumida - e nada contestada - seguidora. Em breve pretendo fazer uma quase resenha sobre Acqua Toffana.


Pois bem. Eis que passeando no shopping (no mesmo dia em que encontrei Eliane Brum e minha vida literária se renovou), desinteressada que estava por algo específico, acabei me arriscando nesse romance de Raphael Montes, recém lançado pela Companhia das Letras e cuja capa me fisgou. Além disso, na contracapa há elogios de personalidades literárias de peso e achei que isso não era algo a se ignorar.

Téo e Clarice são os personagens principais do livro. Coincidência que me encantou. Há em alguns momentos referências a um livro da autora que não existe na vida real (trata-se de um volume que reúne todos os seus contos, obra que não temos em português por nenhuma editora). Mas a referência é apenas porque o personagem resolve presentear a amada com a escritora famosa. E o livro serve como arma em dado momento da  história (por isso a necessidade de ser uma obra grossa, um volume pesado).

Pois bem... Trata-se de uma história de obsessão e suspense. Téo é claramente um jovem desajustado que se apaixona pela jovem e desinibida bissexual Clarice e resolve levar este amor adiante, independente das negativas de seu objeto amado. Clarice estava prestes a viajar para escrever um (péssimo) roteiro de cinema e esse é o mote que sustenta toda a história.

Detalhes ou informações a mais serão dados que lançarei desnecessariamente, caso alguém tenha interesse em ler o livro - já que em se tratando de um romance policial, qualquer informação pode servir de spoiller em uma quase resenha.

Logo o foco aqui é o que achei da obra e nada mais. Devo dizer que não morri de amores. Trata-se de um enredo interessante? Sim. Durante os dias em que o li a história ficou colada em mim e fiquei imersa na trama, mesmo quando não estava com o livro em mãos. Nos dias em que o li antes de dormir, tive pesadelos. Creio que essa aura de terror criada pelo livro, no que vai para além do livro, é por si só um grande mérito do autor.
Mas também achei o texto um tanto cansativo, assim como não me envolvi por completo pelo estilo de escrita de Raphael - a jovialidade do autor acabou por se entranhar em suas palavras e em alguns momentos o que poderia gerar grandes construções literárias acabava por ser restringir à mera repetição de clichês - para os que são leitores habituais do gênero. Claro que Raphael é novo e, pelo andar da carruagem, trilhará um caminho singular na literatura brasileira, abrindo espaço para definir seu próprio estilo e, sobretudo, construir seu público leitor - algo que parece já estar fazendo com maestria.

Algumas reviravoltas no livro são interessantes, instigam, renovam para que a leitura se mantenha constante e curiosa. Outras, no entanto, soam mais como a necessidade de manter a obra em constante mutação a fim de não enjoar o leitor. Raphael também oscila entre construções lapidadas de algumas cenas e outras simplórias, quase superficiais. 

O que vejo - e pode soar um tanto petulante do alto da minha idade e tempo de leitora - é que há no autor indícios de que sua produção ainda alcançará muitos vôos (e não me refiro ao sucesso que já está fazendo, tanto por fazer parte dos autores da Companhia das Letras, quanto pelo número de vendas que tem alcançado ou de espaço na mídia - esse é um mérito já conquistado por ele e louvável frente a um mercado brasileiro competitivo e pouco explorado). O que quero dizer é que em termos de literatura, Raphael certamente amadurecerá sua escrita criando o que muitos chamam de voz própria e amadurecendo suas tramas.



Acho que o livro apresenta algumas falhas, sobretudo na construção psicológica dos personagens - a história é contada em terceira pessoa mas vamos nos entranhando na mente de Téo. O problema é que - e talvez isso tenha sido intencional, já que ele é um assassino desajustado - a própria mente de Téo é incoerente e nos perdemos em passagens que soam mais como erro de continuidade do que bipolaridade do personagem. O que quero dizer, enfim, é que não senti muita coerência na formação do assassino, suas oscilações não criaram costura que me convencesse dos seus desajustes, por exemplo.

Mas o que realmente não gostei, e nesse caso, não gostei com força, foi do final do livro. Diferente dos desfechos o gênero (tanto na literatura, quanto no cinema e nos seriados), tinha tudo para ser inovador: mas não me convenceu. Sem contar que nas últimas páginas do livro, senti um certo ar de: "preciso acabar logo essa história" e tudo foi se desdobrando com uma rapidez narrativa que não havia aparecido até então. Como se a pressa para finalizar o livro o obrigasse a criar um desfecho fácil...

Seus leitores mais constantes - sou leitora de um livro só - dizem que Suicidas é seu melhor livro. Arriscarei, mas deixarei para outra oportunidade. Por enquanto dou-me por satisfeita com este. A fofa da Cocota Nerd tem vários vídeos sobre o autor. Clicando nos links você pode assistir sobre Suicidas e sobre Dias perfeitos (acho que vale a pena, terão uma segunda opinião). E ela ainda está sorteando uma edição de Suicidas autografada, aqui! =)

Dias Perfeitos é um livro interessante e o autor merece atenção. Não se deixem contaminar pela crítica mais pesada dessa velha resenhista. Creio que é um livro que merece leitura para que cada leitor tenha, sobre ele, sua opinião pessoal e intransferível. Posso não ter gostado tanto, mas certamente vocês encontrarão um número proporcionalmente maior do que "uma mulher de um exercíto só" falando bem da obra. Isso basta para melindrar a minha opinião - mas não para silencia-la.

Fiquemos de olho no autor. =)  


domingo, 13 de abril de 2014

Ele era muitos Ruffatos - Entrevista com o escritor brasileiro - e mineiro - Luiz Ruffato


Você deve começar a ler este post sabendo que ele lhe exigirá fôlego. O mesmo que me foi exigido ao encorajar-me a escrever e enviar a entrevista a Ruffato. Passei meses com um bloqueio assustador - não porque ele fosse melhor do que os que aqui já passaram - vocês sabem que só entrevisto quem eu realmente gosto. Mas porque eu já havia assistido a uma série de palestras do autor, em minha cidade, para saber com clareza que nosso papo renderia um conteúdo muito bom - e para isso, precisava fazer perguntas muito boas.

Além do mais, por não ser jornalista e me enveredar por estes caminhos tortos, acabo cobrando de mim algo que pode soar pueril para os outros: quero ler tudo do autor antes de entrevistar. E em se tratando de Ruffato, isso não foi tarefa fácil, por dois motivos. O primeiro deles é que sua literatura não é dessas que se lê num piscar de olhos - ela exige do leitor muito mais do que as outras e precisamos de pausa e fôlego entre os livros. O segundo motivo, e mais salutar deles, é que alguns de seus livros se encontram esgotados, como o De mim já nem se lembra - cujo título me fisgou desde o primeiro segundo.

Minha edição de Eles eram muitos cavalos é ainda da editora antiga. Comprei em 2008, quando o autor veio a Juiz de Fora e fui assistir sua palestra, pela primeira vez.

Logo, é preciso que vocês saibam que ao enviar a entrevista para o autor eu queria dar conta de tudo mas ainda me sentia incompleta. Ao mesmo tempo, não queria perder essa oportunidade tão singular e a disposição tão doce do escritor mineiro - trocamos alguns emails até que esta entrevista se materializasse e foi ali que descobri, por trás do escritor, um homem impecável e doce.

Antes de liberar esse longo bate-papo (que como disse, exigirá fôlego de vocês) gostaria muito de agradecer a ponte que a querida escritora gaúcha, Helena Terra fez para ajudar neste percurso. Não fosse a resenha que fiz sobre seu livro, ano passado, talvez Ruffato continuasse inacessível para mim. Não fosse sua prestimosa atenção e consideração, talvez não tivesse tomado coragem para enviar as perguntas. Não fosse Helena ainda estaria lutando uma troiana guerra contra o texto e a coragem de entrevistar esse escritor que tanto admiro.

E pois que fiquem com suas palavras, que se bastam e que revelam, claramente, o quanto a boa literatura está, também, em boas mãos!

JGD Ao final de seu discurso apresentando, ano passado, na Feira do Livro de Frankfurt, você faz uma declaração de amor à literatura, apontando o papel transformador da mesma. Você é o idealizador da "Igreja do livro transformador". Pergunto, Ruffato: qual ou quais livros te transformaram? E quais escritores exerceram influência na sua formação literária?

Luiz Ruffato O livro que me jogou no abismo ou me tirou dele foi o primeiro que li, Bábi Iar, do escritor soviético, hoje ucraniano, Anatoly Kuznetsov, um romance-documentário a respeito do assassinato pelos nazistas de quase 200 mil judeus numa ravina perto de Kiev, num dos maiores massacres da Segunda Guerra Mundial. Eu não sabia que o mundo era tão grande, tão diverso, tão fascinante, tão cruel, tão bárbaro... Depois desse, outros vieram e, cada um a seu modo, me transformou no que sou hoje. E todos eles, uns mais outros menos, influenciaram, de maneira decisiva, a minha visão de mundo. Poderia citar inúmeros autores que moldaram minha forma de escrita, mas me limito aos mais óbvios: Balzac, Machado de Assis, Tchekov, Baudelaire, Joyce, Faulkner, Guimarães Rosa, Graciliano Ramos, Ferreira Gullar.

JGD Ao projeto "Encontros de Interrogação" (Itaú Cultural) você cita o livro "O feijão e o sonho" alegando que, antes de ser escritor - seu sonho - você buscou ganhar primeiro o feijão. Lembro-me de um Encontro Literário que aconteceu em Juiz de Fora, no ano de 2012, em que você falou muito a respeito do papel do escritor nos dias atuais e, sobretudo, da necessidade do mesmo se perceber como um profissional. Na oportunidade, você explicou que não prestava favores literários e cobrava por cada participação em concurso, palestra, prefácio e texto que produz. É possível dizer que a literatura é o seu feijão hoje em dia? É possível viver de literatura no Brasil?

Luiz Ruffato Eu vivo de literatura desde abril de 2003. Ou seja, há onze anos pago minhas contas com o que rendem financeiramente meus livros. Claro, não se trata de direitos autorais apenas, porque, embora meus livros vendam relativamente bem (à exceção de Eles eram muitos cavalos, que vende muitíssimo bem), as tiragens no Brasil ainda são muito pequenas. Vivo, na verdade, do que rendem os cachês para participação em festas e festivais literárias, no Brasil e no exterior, royalties pela venda de direitos autorais para o exterior, pagamento por prefácios e orelhas de livros, organização de antologias, palestras e cursos de redação criativa. E eventualmente venda de direitos para adaptação de meus livros para o teatro e o cinema.

JGD De acordo com o professor e pesquisador Karl Schollhammer, em Eles eram muitos cavalos você consegue conciliar duas ambições aparentemente contraditórias: escrever um romance comprometido com a atual realidade social do país utilizando uma linguagem adequada à contemporaneidade, fugindo dos formatos tradicionais das narrativas do século XIX. A crítica e os estudiosos da área, apontam você como um bom exemplo para a literatura experimental que vem se formando nos últimos anos. Você concorda com estes rótulos? Eles aprisionam o seu processo de produção?

Luiz Ruffato Eu faço a literatura possível. Me sinto contemporâneo, não da minha época, mas da escolha estética. Não gosto de rótulos, mas não me importo com eles. A única coisa que não aceito é que esses rótulos sejam colados em mim. Não sou escritor experimental, nem social, sou escritor, apenas.  

JGD No O livro das impossibilidades há a seguinte passagem: "Cataguases não oferece horizonte não... Você também, se quiser ser alguém na vida, vai ter que ir embora um dia... Se eu tivesse ficado...". Sair de Cataguases, estudar em Juiz de Fora e ir para São Paulo foram movimentos importantes para a sua formação como escritor? Se você tivesse permanecido em Minas, acredita que teria alcançado - na mesma proporção - o espaço literário que conquistou? O escritor mineiro precisa, ainda, migrar para ser lido?

Luiz Ruffato Não sei responder esta questão de maneira objetiva. Não podemos fazer exercícios prospectivos a partir de um dado do passado. Acredito que nossa vida seja pautada pelos encontros fortuitos que vão determinando o passo seguinte. Se tivesse ficado em Cataguases talvez fosse hoje um operário têxtil aposentado. Ou não. Se tivesse ficado em Juiz de Fora talvez fosse um jornalista prestes a me aposentar. Ou não. Não sei... a vida guarda mais surpresas que possamos imaginar. No meu caso, migrar não era uma opção existencial, mas uma questão de sobrevivência.

JGD Em algumas entrevistas você fala que "não é ninguém em Cataguases", "que é mais fácil ganhar um título de cidadão honorário de Hefheim do que em Cataguases". Ela é a sua Itabira? ("Apenas uma imagem na parede, mas como dói".)

Luiz Ruffato Minha relação com Cataguases é singular. Minha família não é de Cataguases – minha mãe é de Rodeiro, filha de italianos, e meu pai, de Guidoval, filho de portugueses. E eles já morreram. Só me restou uma irmão morando lá. Minha ligação com a cidade é estritamente afetiva, por ter passado a infância e parte da adolescência lá. Agora, a cidade teve sempre um rol de artistas importantes, seja no cinema (Humberto Mauro), na música (Lucio Alves, Maria Alcina), na literatura (Ascanio Lopes, Rosário Fusco, Francisco Inácio Peixoto, Guilhermino César, no passado; Ronaldo Werneck, Joaquim Branco, Fernando Cesário, Marcus Vinícius Ferreira de Oliveira, Marcos Bagno, Ronaldo Cagiano). Ou seja, lá sou mais um. E não lamento isso. Apenas constato. 

JGD Retomando sua fala ao "Ponto de Interrogação", você diz que o que caracteriza a literatura brasileira hoje é a diversidade. Isso, partindo da produção, certo? E você acha que os leitores são também diversos? Ou o acesso à literatura ainda está restrito e voltado para um público consumidor definido e específico? Seus personagens são do proletariado, são os mendigos, os marginais...

Luiz Ruffato (Juliana, permita-me discordar, mas, tirando em alguns poucos fragmentos do Eles eram muitos cavalos, meus personagens são sempre de classe média baixa, nunca mendigos ou marginais....)

JGD A literatura chegou até eles, Ruffato?

Luiz Ruffato A média de leitura no Brasil é vergonhosamente baixa – 4 livros por habitante por ano. Então, nesse sentido, quem lê no país é somente uma pequena parte da classe média, que tem poder aquisitivo e educação. Como a educação é um sistema de manutenção do abismo que separa ricos e pobres, temos que a literatura que faço, que retratas as agruras da classe média baixa, é lida, quando lida, pela classe média alta... Se temos hoje uma certa diversidade na produção, ou seja, temos um número equivalente de homens e mulheres escrevendo, quase todas as regiões representadas e um amplo espectro da sociedade retratada, os consumidores ainda permanecem os mesmos... Entre os leitores a diversidade é bem menor...

JGD Em 2007 você começou um blog e, menos de um mês depois, desistiu. A internet não lhe interessa enquanto espaço de produção literária?

Luiz Ruffato Sou escritor profissional. Se me pagassem para escrever um blogue, talvez escrevesse... Não tenho nada contra os meios sociais como forma de expressão, acho-os até interessante, mas não para mim... Não tenho blogue, nem twitter, nem facebook, nem instagram, nem nada... Nem celular eu tenho... Nem carro eu tenho... nem televisão... Mas não sou um homem das cavernas, tenho um computador, um laptop e um ipad... me mantenho em contato com o mundo virtual, mas eu decido o que quero fazer, quando e onde... É a liberdade e a privacidade que cultivo...

JGD Você começou com a poesia, em Juiz de Fora, publicando - via mimeógrafo - O homem que tece. Isso nos anos 70, lado a lado coma poesia marginal que vinha sendo produzida... Há um hiato até retornar ao meio literário. Por que esse hiato? Depois que voltou a produzir, só publicou dois livros de poesia, todos os outros são contos ou romances. Por que se distanciou da poesia?

Luiz Ruffato Não me distanciei da poesia... Ela encharca minha prosa... Comecei realmente como poeta, em fins dos anos 70, adolescente, e já nesse primeiro livro está todo um programa que eu iria cumprir. As preocupações encontradas em O homem que tece, publicado com 17 anos, é a mesma da pentalogia Inferno Provisório, publicada ao longo da primeira década dos anos 2000. A questão é que mudou, não minha visada social e política – essa apenas se aprofundou -, mas sim minha opção estética. Eu descobri, naquela época, a temática que perseguiria como ficcionista, mas não sabia como transformar esse material humano em literatura, ou seja, me faltava o conhecimento formal. E foi isso que provocou o hiato de 22 anos, período em que passei estudando e pesquisando para encontrar um estilo que desse conta daquele conteúdo. E a descoberta que fiz é a de que só poderia tratar da crueza do mundo de classe média baixa com a intermediação da linguagem poética. E foi por isso que, embora não tenha abandonado a poesia, eu a freqüento com parcimônia. Publiquei um livro em 2002, As máscaras singulares, e outro em 2011, numa edição limitada, Paráguas verdes. No ano que vem, provavelmente, vou lançar uma edição reunindo os poemas de ambos os livros e mais alguns inéditos.

JGD Seus livros são publicados fora do Brasil - França, Itália, Alemanha, Espanha... 

Luiz Ruffato (Espanha não: França, Itália, Alemanha, Finlândia, Portugal, Argentina, Colômbia, Cuba, México e Estados Unidos – no prelo).

JGD Você se preocupa com a tradução, acompanha o processo, faz sugestões? Acha que sua obra perde ou ganha quando traduzida?

Luiz Ruffato Cada tradução é uma experiência específica. Sempre me coloco inteiramente à disposição dos tradutores e alguns deles gostam de trabalhar em parceria, outros não. Mas o resultado não tenho condições de avaliar. Até porque eu não acredito em tradução, mas sim é transcriação. Por isso, defendo que o nome do tradutor seja consignado junto com o nome do autor na capa, pois um bom tradutor na verdade é um escritor, que escreve sobre o texto original. 

JGD Um dos discursos mais constantes nas suas entrevistas e nos estudos de sua obra é que você buscou levar para a literatura o que não estava lá - o proletariado. O que acontece no Brasil atual que, na sua opinião, ainda não foi para a Literatura?

Luiz Ruffato Existem dois motivos muito claros. O primeiro é que a literatura é uma expressão da experiência humana. E é, ao mesmo tempo, a única das artes que exige background do produtor e do consumidor, ou seja, para ser escritor e leitor é necessário uma educação de qualidade (o escritor tem que saber ler e escrever, mas ler e escrever bem). A questão é que a educação de qualidade no Brasil está restrita à nossa elite e portanto os escritores, de uma maneira geral, são oriundos da elite e escrevem sobre a elite e para a elite. Por outro lado, a nossa sociedade é extremamente apartadora e mesmo aqueles escritores nascidos na classe média baixa que tiveram, por algum motivo, acesso à educação, passaram a esconder o passado, para serem aceitos no meio literário.      

JGD Você diz que seu método de produção se resume em "sentar e escrever". E em entrevista à Heloisa Buarque de Holanda, assume-se um estrategista compulsivo. Sentar e escrever é uma estratégia... Mas, você acredita na inspiração?

Luiz Ruffato Não, não acredito em inspiração. Acredito que exista um inconsciente coletivo e que eu, como escritor, tendo acesso a ele, mergulho e saio contaminado por memórias que não são as minhas. Então, escrevo histórias que, se lidas, voltam a alimentar o inconsciente coletivo. E, para isso, meu corpo é meu instrumento de trabalho. Assumo minha literatura como uma literatura corporal, escrevo a partir dos meus cinco sentidos, interessam-me não só a composição visual e auditiva, mas também a táctil, olfativa e gustativa. Por isso, resumo meu processo de escrita a isso: sentar e escrever.  Escrevo todos os dias, tenho uma disciplina férrea e encaro meu trabalho como um trabalho como outro qualquer. 

JGD "Eles eram muitos cavalos" já foi cobrado em programa de vestibular de algumas universidades. Saber que adolescentes estão lendo sua obra por obrigação, o incomoda? Acha que a literatura consegue sobreviver nestas condições?

Luiz Ruffato Os leitores de livros para vestibular não são leitores habituais. Mas sempre desse universo sobram alguns leitores, que podem vir a se tornar habituais. O problema não são as leituras de vestibular, mas sim o método de introdução da leitura de livros no momento em que se está formando o leitor, ou seja, na infância. Acho curioso que toda criança, ou a maior parte delas, gosta de ler os livros destinados à infância. Quando adolescentes, a maioria se afasta da leitura, não só porque aparecem outros interesses – a leitura compete com a televisão, com o computador, com os esportes, etc – mas principalmente porque são obrigados a ler livros que em nada interessam a eles. Além do que, em geral, os professores não gostam de ler... É como alguém que não gosta de comer quiabo tentando convencer um adolescente a comer quiabo...

JGD Em entrevista à Folha você disse: "Quando eu publiquei o Eles Eram Muitos Cavalos, muitos críticos torceram o nariz e disseram "mas isto não é um romance". Também acho que não é. Mas o que é? Não é um livro de contos. Quero colocar em xeque estas estruturas. Não quero fazer uma reflexão só sobre a realidade política, mas também questionar por meio do conteúdo a forma." Citando, ainda a entrevista que deu à Heloísa Buarque de Hollanda, você comenta que gostaria que o livro fosse publicado em "uma edição, não-comercial, de uns 250 exemplares, na qual todos os capítulos estarão dentro de um envelope absolutamente soltos e o leitor constrói o seu próprio Eles eram muitos cavalos. Sei que editorialmente isso é quase inviável, mas na verdade, esse é o meu projeto original." É possível transgredir quando as editoras não permitem espaço para a transgressão? É possível, afinal, fazer literatura, sem que os fantasmas das editoras, do mercado, das vendas, dos limites, rondem um escritor?

Luiz Ruffato Eu faço... Nunca me preocupei com isso. Acho que o escritor não deve se preocupar com isso. Se o livro vai ser entendido, se vai vender, se vai ser traduzido, isso não deve ser levado em consideração. A única coisa que o escritor deve fazer é ser fiel a si mesmo. Há algo no texto que transcende o espaço, o tempo, o idioma. Isso é que deve ser perseguido...

JGD O que você está lendo agora? E o que você lê sempre?

Luiz Ruffato Eu estou relendo o José de Alencar. Estou na verdade lendo toda a obra dele, de Cinco Minutos até o romance inacabado Ex-Homem... quero ver se escrevo um ensaio sobre a obra deste que foi, no meu entender, um dos três mais importantes escritores-pensadores da literatura brasileira – Junto com Machado de Assis e Mário de Andrade.

JGD Em que você está trabalhando agora?

Luiz Ruffato Desde o final do ano passado tenho uma coluna semanal na edição Brasil do jornal espanhol El Pais. Essas colunas, selecionadas, serão reunidas em livro em novembro e serão publicadas pela editora Arquipélago, de Porto Alegre. Em maio, será lançado um novo livro, o romance Flores Artificiais, pela Companhia das Letras, que reeditará também um livro há muito fora de catálogo, De mim já nem se lembra. Ainda em maio vou para a Europa lançar as edições locais de De mim já nem se lembra (na Itália, pela La Nuova Frontiera), Eles eram muitos cavalos (na Finlândia, pela Into) e O Mundo Inimigo (na Alemanha, pela Assoziation A). No segundo semestre lanço a edição em inglês de Eles eram muitos cavalos (nos Estados Unidos, pela AmazonCrossing). Quase certo ainda o lançamento de uma nova edição de Eles eram muitos cavalos, em Portugal (pela Tinta da China; a anterior está há anos esgotada) e de Vista parcial da noite, no México (pela Elephas). E estou começando um novo romance...

JGD Aos que ainda não conhecem a sua literatura, sugere algum livro para começar?


Luiz Ruffato Eu sugeriria Eles eram muitos cavalos (a 11ª edição, que saiu pela Cia das Letras).

*


Eis. Longa e deliciosa entrevista. A prova de que Ruffato é de um altruísmo literário sem limites. Cedeu a entrevista e o fez com cuidado e atenção impecáveis. As duas "gafes" cometidas por essa entrevistadora que vos escreve foram fruto de pesquisas feitas em sites e livros. De modo que sinalizo o que foi um problema enfrentado por mim: não vamos confiar em tudo o que encontramos por aí.

Para saber um pouco mais sobre o autor você pode ler a minibiografia abaixo, ou ainda, seus livros. Duvido que não irá também se apaixonar por ele! =)

Luiz RuffatoEscritor, é autor de Eles eram muitos cavalos (2001, Prêmio APCA e Prêmio Machado de Assis), De mim já nem se lembra (2006), Estive em Lisboa e lembrei de você (2009) e do projeto Inferno Provisório, composto por cinco volumes: Mamma, son tanto felice (2005, Prêmio APCA), O mundo inimigo (2005, Prêmio APCA), Vista parcial da noite (2006, Prêmio Jabuti), O livro das impossibilidades (2008) e Domingos sem Deus (2011, Prêmio Casa de las Américas). Seus livros estão publicados nos Estados Unidos, Alemanha, Finlândia, França, Itália, Portugal, Argentina, Colômbia, México e Cuba.

Você também pode ler sua coluna no site El pais, clicando aqui. 

That's all, fox!

sexta-feira, 11 de abril de 2014

"Uma duas" de Eliane Brum [Leya]

Voragem. Foi assim, foi isso que senti durante toda a leitura. Há tempos um livro não me sorvia por inteira. Senti o que sentia quando lia Clarice, senti o que não sentia há tempos!

Primeiro preciso dizer que resisti à leitura de Eliane, bravamente. Confesso que tinha com ela certo preconceito, achava que sendo jornalista cronista, ela não teria muito a me oferecer (sim, eu tenho preconceitos literários, quem não tem?). E eu os assumo, e diferente de muitos, estou disposta a muda-los o tempo inteiro, por isso leio de tudo, o tempo inteiro.

Então, voltando ao preconceito, acreditava que Eliane seria tipo Martha Medeiros - sei, desculpem-me os que gostam dela, mas não dialogamos muito, literariamente falando (Patrícia querida Pirota que me perdoe, mas não batemos mesmo). Pois bem, achava que Eliane era do mesmo estilo. Vira e mexe alguém comentava nos vídeos, na fanpage, ou aqui mesmo no blog: "Ju, você já leu? Conhece algo dela? Gosta?". E eu silenciava...

Aí fui ao shopping e não achei muitas novidades, não vi nada que me interessasse demais. Fui passear mas voltei para casa com quatro livros, escolhidos aleatoriamente, sem nenhuma ligação uns com os outros. Eliane estava entre eles. Foi o segundo que peguei para ler - o primeiro está um pouco abandonado, não estou morrendo de amores por ele. E peguei Eliane porque estava com sono e queria dormir logo, então não arriscaria uma obra que pudesse me manter acordada, certo?

Errado. Erradíssimo. Eliane não me deixou dormir e só cedi ao sono por exaustão. No dia seguinte, na primeira brecha, corri novamente ao seu texto. E que texto, meu Deus, que texto!

Uma duas é a história de Laura (personagem que recebe esse nome por causa de um livro de Clarice Lispector) e sua mãe, Maria Lúcia. Fora mais três personagens que aparecem nas sombras, as duas sugam o livro todo, e nos sugam a cada página. Mãe e filha que possuem uma relação frágil, intensa, exótica e acima de tudo, amorosa. Houve um momento no livro que cheguei a pensar que não gostaria da obra exatamente porque a relação de ambas se diferenciava em muito da minha com minha mãe, pensei que o livro ia me perder por falta de diálogo entre nós (o bom e velho diálogo a que sempre me reporto quando quero falar da simpatia com uma história). Porém, foi exatamente a diferença das relações, a falta de reflexo entre o que vivo e o que lia, que me manteve ali até a última página. E pior, foi o que me mostrou, na última página, que era na diferença que nos aproximávamos, que a diferença era apenas superficial, porque a vida, o amor, a incondicionaldade da relação mãe e filha estão ali, consumindo ambas, mostrando que o avesso de ambas e a repulsa que sentiam uma pela outra eram fruto do amor. Provando que o amor pode, também, fazer mal.

O que mais falar sobre o livro? Que ele fala sobre si mesmo sozinho. Que Eliane se basta de tal maneira que parece não haver literatura que se suporte, nem antes, nem após a obra. Que estou me tornando previsível mas devo dizer que esse é de longe o melhor livro que li esse ano... o melhor livro que li nos últimos cinco anos... o melhor livro que li desde que conheci Clarice Lispector.

Voragem. Eis o que Eliane despertou em mim.


segunda-feira, 7 de abril de 2014

Curvo o tronco para frente, reverencio e agradeço...

Se já falei, apenas vou repetir: aos sete anos de idade escrevi meus primeiros poemas. Logo, aos sete anos de idade eu não sabia ainda o que queria ser quando crescesse, mas já queria ser poeta.

A poesia faz mais parte da minha vida do que eu mesma. É ela que move meus passos enquanto acredito que das coisas podemos tirar versos, seja de dor, seja de alegria. Minha produção encontrou longos períodos de hiatos, contra outros de intensa escrita. Não a domino, nunca a dominei. Certo é que dominou em mim a vontade de ser lida. Mas confesso que publicar um livro de poesias era mais sonho do que certeza de realização.

Quando no ano de 2012 vi a chance se aproximar, assustei-me. Talvez por isso tenha deixado o tempo agir e esmagar o sonho: a editora primeira a propor publicação, atrasou. Medrosa que sempre fui da recepção do leitor, do público (Iser*, me abraça) deixava as desculpas agirem e agia menos. Para que correr se eu podia correr de mim mesma?

E os versos, tal como Bocage temia, não iam à lume. 

Até que um dia, indo à padaria atrás de um bolo, encontrei um sonho. Uma editora, assim, perdida nas ruas que pouco visito desta cidade que pouco me tem. Entrei. Se fosse para pagar, pagava. Se fosse para gastar com livros, que fosse com o meu. Não precisei. Meu editor (a posse do outro sempre assim, tão agradável aos ouvidos, a posse ainda de um outro cuja profissão me torna poeta, é ainda mais agradável então) fez sua oferta: eu lucro, tu lucras. Eu ofereci algo ainda melhor: tu faz, eu não lucro, o livro vende barato e serei linda, que lindo. Ele se assustou: não lucras? Não. Não lucro. Não quero dinheiro com poesia - não sou assim tão utópica. Quero leitores.

Os tenho. Desde novembro do ano passado tenho visto a mágica acontecer: números de vendas que sobem e me assustam; leitores que enviam emails encantadores - que nem sempre consigo responder -; meu livro nas estantes das livrarias... E agora, ao colocá-lo à venda no blog, encontro em menos de sete dias, mais de quarenta leitores interessados na obra - quando achava que todos os possíveis leitores já tivessem se esgotado por aí...

Ao sete eu queria ser poeta. Mas era apenas uma criança que andava atrás dos pais lendo os poemas que os pais provavelmente não gostavam - ou entendiam.

Hoje, graças aos que estão interessados em meu livro, posso afirmar, acima de qualquer outro título que a vida me dê, que sou poeta, que sou completa.

Obrigada!




*Wolfgang Iser, teórico da estética da recepção. 

domingo, 6 de abril de 2014

Últimas compras

e muito livro para pouca vida, como sempre...