Primeiro eu achei que fosse alguma continuação ou refilmagem daquele filme antigo, de mesmo nome. Aí até pensei com meus botões: nossa, que viagem.
Depois um amigo perguntou se eu tinha visto, chamando-me pra ir. Saber que era um filme sobre o Edgar Allan Poe deixou-me tão eufórica que não aguentei esperar o dia seguinte da notícia: carreguei meu amigo para a última sessão de sexta.
Li Poe bem antes dos quinze anos. Hoje creio que era uma versão adaptada e, se não me falha a memória, era exatamente a capa que vos apresenta. De modo que posso ter lido Poe, traduzido por Clarice Lispector! Antes mesmo de ter lido algo dela.
Minha recordação de leitura deste livro é tão nítida que frequentemente a desperto para relembrar dos detalhes. Lembro perfeitamente que ao término do livro meu medo era tamanho que não levantei da cama por minutos, minutos longos. Eu pegava livros diariamente na biblioteca do colégio, às vezes, três por vez. E era diária a minha leitura. Depois de cumprir com minha rotina, deitava-me e sorvia os livros do dia. Poe era um deles.
Poe é um dos escritores que respeito com admiração. Por isso, ao saber de um filme chamado O corvo cujo personagem seria o próprio escritor, minha alma se inquietou e vestiu-se de uma euforia sem explicações.
John Cusack está bem caracterizado, não resta dúvidas. Faltou-lhe um pouco mais de olheiras e uns kilos a menos - mas só percebi isso agora, ao procurar imagens de Poe. É um excelente ator, porém, não consegue sustentar o filme.
A fotografia é forçada e cansativa: tudo muito cinza, tudo desnecessariamente velho e frio... Os atores que contracenam com ele - todos desconhecidos por mim - deixam aquela sensação de que "um outro autor fulano faria melhor"... Alguns diálogos beiram o ridículo e apesar da seriedade, só fazem despertar o riso e o desdém durante a cena. Sem contar o enredo, tão descosturado quanto um vestido produzido por mim.
Ficção e realidade se alternam o tempo todo, livros de Poe são citados e algumas cenas reproduzidas - o mote do filme é um assassino que se baseia em seus livros para desafiá-lo. O dado real de sua misteriosa morte é explorado no início e no final do filme, de maneira circular. A única e melhor cena - sendo bondosa e forçada - é a que o escritor, sem dinheiro, tenta comprar conhaque numa taberna e recita um trecho de seu famoso poema.
O resto é firula, sessão da tarde, baboseira. Colocar Poe como um dos investigadores do sequestro da sua amada foi uma das coisas mais absurdas que um roteirista poderia fazer.
Bocejei, cochilei e cheguei a conclusão de que ganharia mais em casa relendo suas "Histórias Extraordinárias" do que assistindo a uma película ordinária.
Ando colecionando decepções literárias no cinema. Sherlock Holmes - apesar do meu amado Robert Downey Jr - foi um engodo. O retrato de Dorian Grey - mesmo com Colin Lindo Firth - foi uma mesmice. E agora esse estrago com autor cuja história daria um filme muito, muito melhor!
Não resisto à piada óbvia, mas: never more!